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Plotino e a Reintegração
“Procurai sempre conjugar o divino que
há em vós com o divino que há no universo"
- Plotino
Reintegração é uma palavra
comum no meio martinista. Pasqually, Saint-Martin, Papus sempre
deram uma importância ao objetivo final do homem, que
é o de se reintegrar, ou seja, voltar ao estado original
do Ser. Antes de nossos Mestres um filósofo grego já
desenvolvia idéias sobre a reintegração.
Plotino (204 - 270 D.C) foi discípulo
de Amônio Saccas, fundador da primeira escola de neoplatonismo
de Alexandria, que tinha como linha de pensamento encontrar
conclusões místicas e sublimes sobre os ensi-namentos
de Platão.
Plotino era um homem muito reservado e jamais
disse a seus amigos o dia de seu aniversário, alegava
que não queria que celebrassem a oca-sião com
sacrifícios e banquetes. Ele envergonhava-se de estar
aprisio-nado em um corpo mortal. Certa vez observou: ”A
descida de minha alma para este invólucro detestável
é um acontecimento tão infeliz e assustador que
não desejo discuti-lo”.
Plotino chegou a Alexandria quando a glória
e a reputação da cidade ainda resplandeciam. À
frente de sua magnífica escola de filosofia estava Amônio
Saccas. Plotino ficou maravilhado com este homem, sobre quem
mais tarde escreveria o seguinte: “este é o homem
que tenho pro-curado desde sempre.”
Dentre os amigos de Plotino quem mais se destacou foi Orígenes,
um mestre em alegoria. Para ele o ser humano não estava
na terra ape-nas para contemplar os quatro cantos do universo:
”ele deveria pegar cada momento e segurá-lo ternamente
nas mãos, compará-lo com outros momentos, com
a terra e o céu, com os planetas, com as constelações
- examinar qual outro sentido aquele momento poderia ter, qual
outro propósito ou fim.”.
Após terminar seu curso com Amônio,
Plotino viajou para Pérsia e depois fixou residência
em Roma. Aos 49 anos fundou sua própria escola de filosofia
e começou a escrever suas famosas Enéadas. Assim
como Amônio e Orígines, Plotino era neoplatônico,
mas como místico, suas idéias o levaram além,
para mundos espirituais e filosóficos desconhecidos até
então. Ele acreditava que os seres humanos estavam aprisionados
pelas frustrações, frutos do corpo e de suas paixões.
Enquanto a mente estiver presa neste corpo
material, é submetida ao mal e ao sofrimento. O mundo,
contudo, é uma tumba muito maior; a mente deseja escapar
de seu aprisionamento, mas não pode, e o resultado desse
embate é a tensão.
Jacob Boehme também escreve sobre esta tensão.
Em seu livro “A Revelação dos Mistérios
Divinos” ele descreve que um “desconforto”
atinge o ser humano em uma fase da sua vida, e este desconforto
acaba sendo a centelha para o desenvolvimento do fogo espiritual
que existe nele.
Segundo Plotino, a tensão entre a existência
da mente em um mundo material e o desejo pelo eterno é
comparável a um homem coberto de lama dos pés
à cabeça, em que a beleza original é maculada
pela fealda-de. Para tornar-se novamente belo, é preciso
limpar-se, purificar-se a si mesmo pela ascensão gradual
da mente daqui para lá – das regiões mais
baixas para as mais elevadas: a realização do
destino espiritual. “Aspirai aos dons mais altos”
(1Cor 12,31) para atingir o Uno. Para Plotino, a causa última
do universo é o Uno. Ele está além do mundo
material e espiritual, ele é absolutamente Uno e absolutamente
Bom. Todo o mundo criado procede do Uno, a unidade da qual emanou
toda a multiplicidade que existe no mundo, onde todos os seres
habitam.
Não só todas as coisas emanam
dele, mas também lutam para retornar a Ele. Eis o drama
da Reintegração: Encontrar a via que conduz à
Unidade (O Bom, O Belo e a Verdade) em meio às dificuldades
que a multiplicidade nos apresenta (vícios, medo e violência).
Entretanto, poderia uma humanidade frágil, sempre se
debatendo, atingir esse objetivo, a Reintegração?
Plotino, é claro, falava da jornada espiritual, cujo
objetivo não poderia ser alcançado “pela
inútil prática de obrigar a aceitar a Deus ou
adorar ossos de santos e mártires".
Se alguém quisesse sinceramente buscar
a verdade eterna, deveria refugiar-se em sua própria
mente e contemplar a si mesmo como o belo, agir como um escultor,
cortar fora pedaços desnecessários, desbastar
e entalhar profundamente até que um rosto seja formado.
Quando o trabalho estiver perfeito, quando todo o ser estiver
envol-to pela pureza e nada puder obscurecer sua força
interior — quando discernir ele mesmo habitando na perfeição
- é necessário dar mais um passo.
Se os olhos não estiverem borrados pelo vício
— se for inteiro e for-te, se sua mente for bela, se for
pura — ele poderá ver o que homem algum jamais
viu: contemplar a si mesmo como Deus!
Esta é a mensagem que Plotino deixou
para os Martinistas, de ontem e de hoje. Que é possível
atingir a reintegração mesmo vivendo em um mundo
cheio de dificuldades e tristeza. A pobreza, a doença
e o crime não podem desviar o homem virtuoso que escolheu,
de uma forma consciente, trilhar esta jornada espiritual rumo
ao Uno.
Nos laços da Ordem sou,
Ir
ArcanoXIX - FRC, SI
Bibliografia:
Vrettos, T. - Alexandria, A cidade do pensamento ocidental.
Odysseus Editora, 2005
Leitura Recomendada:
Plotino – Tratado das Enéadas, Polar, 2002
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