Num dos volumes,
o vigésimo-sexto de sua vasta Enciclopédia teológica
- uma série de dicionários sobre todas as partes
da ciência religiosa - ele evoca o martinismo. Esse
artigo, publicado em 1850 e situado no volume III do Dicionário
das religiões de sua Enciclopédia, contem vários
erros e aproximações. Entretanto, ele representa
um documento testemunho da ótica dos meios católicos
do século XIX sobre o martinismo. Esta é a razão
que nos fez pensar ser interessante reproduzi-lo neste site.
Sectários
teosóficos, ao final do século passado, formaram
um símbolo copiado parcialmente do cristianismo, parcialmente
da filosofia natural e parcialmente do iluminismo. Mas o abade
Grégoire pergunta qual é o fundador do martinismo;
pois ele diz, pode-se escolher entre Saint-Martin e Martinez;
efetivamente é o último que inicia Saint Martin
nos mistérios teúrgicos. Ignora-se a pátria
de Martinez de Pasqually, que morreu em São Domingos
em 1799; presume-se, entretanto, que ele era português.
Ele pretendia encontrar na cabala judaica a ciência
que nos revela tudo aquilo que diz respeito a Deus e as inteligências
criadas por Ele.
Ele reconhecia
a queda dos anjos, o pecado original, o Verbo reparador, a
divindade das Escrituras Sagradas. Ele dizia que, quando Deus
criou o homem, Ele lhe deu um corpo material enquanto que
antes este só tinha um corpo elementar. O mundo havia
ficado igualmente no estado do elemento; foi Deus que coordenou
o estado de todas as cria-turas físicas para aquele
do homem.
Saint-Martin, nascido em Amboise no ano de 1743, teve a oportunidade
de conhecer em Bordeaux Martinez Pasqually, que ele cita como
sendo seu primeiro mestre e Jacob Boehme como o segundo. Essas
relações decidiram o destino de sua vida e de
sua teoria.
Saint-Martin havia
primeiramente abraçado a profissão de advogado,
a qual abandonou pelo exército; igualmente renunciou
ao último, viajou para a Itália e Inglaterra
e estabeleceu-se em Paris onde permaneceu até a Revolução;
faleceu em Aulnay-les-Bondy em 1804. Produziu algumas obras
teosóficas, dentre elas várias estão
assinadas Filósofo Desconhe-cido. Ele tem a pretensão
de fundar sua teoria nas relações eternas que
e-xistem entre Deus, o homem e o universo, e adianta que essas
relações são desenvolvidas não
somente no Antigo e no Novo Testamento, mas em todos os livros
de reputação, sagrados para diferentes povos.
Nós não
entraremos aqui no detalhe de sua teoria, a qual seria bas-tante
difícil de formular; ela é fundamentada quase
inteiramente no ilu-minismo e numa física freqüentemente
absurda. De um ponto de vista equilibrado, intercala-se uma
imensidão de coisas ininteligíveis, no meio
delas a razão se perde, na dança, no âmago;
ela é a imagem da origem, desse matraz geral ou desse
caos pelo qual a natureza temporal atual começou; -
sobre a mente astral ou atur-dida: o templo de Jerusalém
existiu para garantir as operações do culto
levita das comunicações astrais.
A existência
de seres corporais não é senão uma verdadeira
quadratura. – Toda a natureza é um sonambulismo.
– Nossa boca está entre as duas regiões
interna e externa, real e aparente; ela é susceptível
de rela-cionar-se tanto com uma como com a outra: os homens
também se dão mais beijos desleais do que beijos
sinceros e vantajosos. Se o homem tivesse ficado em sua glória,
sua reprodução teria sido o ato mais importante
e teria aumentado o brilho de seu sublime destino; hoje essa
reprodução está exposta aos maiores perigos.
Num primeiro
plano, ele vivia na unidade das essências, mas atual-mente
as essências estão divididas: uma prova de nossa
degradação é que seja a mulher terrena
que produza hoje a imagem do homem e que ele seja obrigado
a conceder a ela essa obra sublime que ele não é
mais digno de operar por si próprio.
Entretanto, a lei das gerações dos diversos
princípios, tanto intelectual quanto física
é tal que, qualquer que seja o local para onde levar
seu desejo, ele encontra logo um matraz para receber sua imagem:
verdade imensa e terrível.
Num paralelo entre
o cristianismo e o catolicismo, como se essas duas coisas
não fossem idênticas, ele sentiu-se livre para
depravar e caluniar o catolicismo que, como ele diz, é
tão somente o seminário, o cami-nho das provas
e do trabalho, a região das regras, a disciplina do
neófito para chegar ao cristianismo.
O cristianismo
conforta-se imediatamente na palavra não escrita; ele
carrega nossa fé até a região clara da
palavra divina: o catolicismo con-forta-se geralmente na palavra
escrita ou no Evangelho e particularmen-te na missa: ele limita
a fé aos limites da palavra escrita ou da tradição.
– O cristianismo é o termo, o catolicismo é
somente o meio; o cristianis-mo é o fruto da árvore,
o catolicismo só pode ser o adubo; o cristianis-mo
provocou a guerra somente contra o pecado, o catolicismo provo-cou-a
entre os homens.
Nos reprovaríamos
em não dar aqui uma lógica exata das idéias
de Saint-Martin, pois seus próprios discípulos
contestam as habilidades de apreciá-la por qualquer
um que não seja admitido por seu sistema; al-guns o
seriam apenas no primeiro grau, outros no segundo, no terceiro
etc.; de onde resulta que é necessário esperar
por uma graça interior ou, como eles dizem, uma revelação
radical para poder pegá-la e compreen-dê-la.
Existe em Moscou
uma seita, nascida na universidade de Moscou por volta do
fim do reinado de Catherine II e pela conformidade com a teoria
dos martinistas franceses lhe foi dado o mesmo nome. Ela teve
como líder o professor Schwarts.
Os martinistas russos eram numerosos no final do século
XVIII mas, tendo traduzido em russo alguns de seus manuscritos
e procurado espalhar sua doutrina, muitos foram aprisionados
e depois libertados quando Paul subiu ao trono. Atualmente
eles foram reduzidos a um número muito pequeno.
Eles admiram
Swedenborg, Boehme, Ekartshausen e outros escrito-res místicos.
Recolhem os livros mágicos e cabalísticos, as
pinturas hie-roglíficas, os emblemas das virtudes e
dos vícios e tudo em que as ciências ocultas
se apóiam.
Eles professam
um grande respeito pela palavra divina que revela não
somente a história da queda e da libertação
do homem mas que, de acordo com eles, contém ainda
os segredos da natureza; procuram também, por toda
a Bíblia, os sentidos místicos. Isto é
aproximadamente o que dizia Pinkerton em 1817.
Tradução Iacy de Ferran
Titulo Original: Le martinisme dans l'Encyclopédie
Migne (1850)
Texto cedido pelo site http://www.philosophe-inconnu.com
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